Herdeiros sem Testamento

No dia 1 de fevereiro deste ainda jovem 2015, a sra. Lisa Boswell publicou um corajoso artigo – Ethnic Fraud and Cultural Appropriation in the Spiritual Communities – que trata do tema de apropriação cultural, assunto com crescente discussão à medida que o (novo) politeísmo ganha números, se bem que já era um problema muito antes de o culto aos deuses antigos sequer ser reconhecido como algo do presente; refiro-me, especialmente, aos nativos da América do Norte e Sul, que vêem as suas já fragmentadas tradições espalhadas ao sabor do vento, e sem um mínimo de contexto. Não são, contudo, os únicos a sofrer deste problema, como Boswell revela. Sugiro vivavemente que leiam o seu artigo, não só para se informarem, mas também para que estejam aptos a entender o que desejo transmitir com este post.

Apesar não estar diretamente direcionado a neo-pagãos e politeístas (1), o texto da sra. Boswell é perfeitamente aplicável àqueles que se identificam com estas correntes religiosas. Creio que isto atesta a qualidade do post, já que consegue ser válido para mais do que um paradigma…

A sra. Boswell refere-se, claramente, às culturas que ainda estão vivas (umas mais que outras), e sugere que o sobreviver das tradições inerentes a estas deveria ser feita pela mão daqueles que neles estão envolvidas por educação. É um ponto em que concordo, apesar de não achar que se deva proibir um outsider de conseguir através de alguém que realmente esteja dentro do assunto, o ensino e exemplos necessários para que possa perseguir os seus interesses. Mas, de facto, não há uma autoridade central que lide com tais assuntos — deveria haver, conhecendo-se os monopólios monoteístas? — nem se pode ter a certeza daquilo que alguém pretende fazer ao tomar conhecimento de um conjunto de tradições. Poderá, possivelmente, apropriar-se delas? É comum que isso aconteça, e não precisamos de grande esforço para encontrar tradições desprovidas do seu contexto e simbologia: ainda há uns dias, enquanto fazia channel-surfing, deparei-me com uma suposta vidente que praticava defumação com sálvia — um método de purificação próprio de tribos da América do Norte — num contexto genericamente “espiritual” ou vagamente cristão. E quem já estuda/ou Wicca há tempo suficiente sabe que a defumação com sálvia também é usada por alguns autores, ainda que sem a mínima referências às origens do uso de tal erva.

Atualmente — e falando especificamente dos movimentos Reconstrucionistas — existe um número considerável de religiões que estão a passar por um autêntico renascer; um renascer lento, quase impercetível, é verdade, mas para aqueles que já têm algumas décadas de prática, deverá ser certamente mais percetível do que alguma vez antes. Entre estas fés estão as crenças dos povos Helenos, Celtas, Germânicos, Itálicos, Bálticos, Eslavos, Arménios, Dácios, Trácios, Egípcios, Cananeus, Aztecas, Finos, Túrquicos, Etruscos… uma míriade de deuses e deusas e de tradições a serem resgatadas. Esperem… mas por quem?
A maior parte dos povos que referi estão, para todos os efeitos, mortos, e as suas tradições estão quase tão mortas, se bem que há sobrevivências em folclore. O que é que nós (reconstrucionistas)  podemos fazer? Devemos esperar que, imaginemos, os cadáveres dos antigos Dácios se ergam dos seus túmulos, por obra e graça de Zalmoxis, e tenham a bondade de nos ensinarem? O nosso problema é que não resta ninguém que nos permita aceder ao ensino das tradições religiosas da Antiguidade, e uma vez que muitos de nós possuímos genuíno interesse e devoção, não vamos placidamente ignorar o nosso desejo. Vamos aprender o máximo que pudermos.

Todavia, um passo importante para uma prática saudável das fés antigas que referi, é saber que não somos aqueles que outrora as mantiveram. Podemos honrar os Netjeru (Deuses nativos do antigo Egito), mas não somos os Egípcios ainda que vivamos nas terras deles. Podemos louvar os Aesir e Vanir num fluentíssimo Nórdico Antigo, mas não resta ninguém vivo da Idade do Ferro Germânica. Pode ser uma constatação triste, saber que estamos tão perto, mas que simplesmente não podemos atingir algo. De qualquer das formas, creio que o interesse daqueles que, como eu, praticam o culto aos deuses — independentemente de panteão — está no próprio divino, nas suas histórias, nos seus pequenos ou grandes ritos, nos costumes sociais que esperamos um dia adotar (e adaptar, segundo o modus operandī reconstrucionista) no seio da nossa família, e/ou comunidades.
Os felizardos, podem, no entanto, aperceber-se de que há folclore nativo da área outrora habitada pelo cultura pela qual estão interessados. Enquanto que tal folclore pode, de facto, preservar práticas ancestrais que sobreviveram, é provável que estas retenham apenas laivos de tradições pré-cristãs. Um ótimo exemplo são as daĩnos lituanas e letãs — reconhecidas como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO — que são autênticas relíquias do passado politeísta dos povos Bálticos, e que, frequentemente, estão repletas de motivos das crenças ancestrais. Pode um reconstrucionista, especialmente estrangeiro, afirmar conhecer mais sobre as daĩnos do que aqueles que as cantam com frequência, do que aqueles que as ouviram das bocas dos seus pais e avós? É provável que não, ainda que possa entender de métrica entre culturas Indo-Europeias e de mitologia comparativa. Todavia, não é impossível que, com as melhores oportunidades, não possa vir a atingir um nível de conhecimento semelhante. Não quer isto dizer que o comum Lituano ou Letão — predominantemente cristão ou ateu — obrigatória e indiscutivelmente perceba mais das crenças pré-cristãs do que alguém que dedica a sua vida a entendê-las, sendo nativo, ou não.
Porém nos casos em que não há nada semelhante ao exemplo anterior, devemos restringir-nos à teimosia do romanticismo? Não posso evitar dar um exemplo que conheço bem: o meu. Presto culto aos deuses da Gália antiga, mas deve haver apenas um mínimo de sangue associado ao norte e centro da Europa nas minhas veias (2), possivelmente por via do meu avô materno. Todavia, duvido que isso faça de mim um candidato a descendente de gauleses. Devo comiserar-me por não ser Francês, Alemão, Belga…? Não, pois estudei, e ainda estudo, o mais que posso sobre a cultura dos Gálios e tenho a certeza de que que sei mais do que o comum Francês. Não sou Gálio, os verdadeiros Gálios não me reconheceriam como tal, se ressuscitassem, mas sangue Francês/Alemão/Belga não tornam alguém Gálio; é necessário juntar herança genética, cultura, e idioma.
E o que dizer do culto aos deuses de Roma? Estão todos os falantes nativos de línguas latinas especialmente habilitados para lhes prestar culto? Diria que talvez não faça muita diferença, uma vez que os falantes dos reflexos do Proto-Romance são educados segundo um paradigma cristão; aliás, Roma é o bastião do Catolicismo. Contudo, a proximidade genética e linguística faz com que o desejo de muitos de procurarem aproximar-se dos deuses dos seus antepassados passe apenas por um processo de aculturação (3).

Algo que não devemos presumir é que somos — por qualquer um dos motivos — mais dignos do que outros de prestar culto, de escolher adotar (dignamente) uma cultura e de viver de acordo com ela. Se começarmos guerras ridículas com base no direito a acreditar, estaremos a poucos passos de nos tornarmos como aqueles que chacinam centenas por dia no Médio-Oriente. O sangue pode tornar-nos mais aptos, o sangue confere-nos a responsabilidade de assegurar a integridade das tradições, mas não nos concede um monopólio.

Em suma, este género de assunto não é preto e branco, como praticamente tudo na vida. Estudar algo não implica que necessariamente se tem a experiência e o conhecimento de um insider, da mesma forma que um suposto insider que herdou algumas tradições não tem de ser mais versado do que alguém que estudou. Isto é muito parecido à vida universitária…
Acho que acima do sangue, estão a fidelidade e a verdade.
Um fator importante para evitar este tipo de problemas é combater a ignorância com conhecimento devidamente fundamento, e, se possível, com diálogo e humildade. Sabemos o que sabemos, e o que não sabemos, admitimos. Podemos não mudar de imediato a apropriação cultural Se nos deparamos com algo que podemos resgatar, algo a que os verdadeiros herdeiros renunciaram, temos de o defender se necessário. Toda a ajuda é bem-vinda, desde que seja realmente uma ajuda.

  1. Espero não ofender ninguém com esta divisão, mas não sei (nem muitos outros) como melhor classificar aqueles que prestam culto a vários Deuses, e os que preferem uma visão semelhante à de Jung, um ou dois deuses traduzirem todos os restantes.
  2. Tanto quanto sei. Ninguém da minha família me sabe dizer mais além de que os seus pais, avós e bisavós nunca saíram das redondezas da cidade onde vivo. Seria interessante fazer um teste daqueles que a National Geographic promove, mas não faltam-me os fundos.
  3. Na minha ótica de forasteiro à religião nativa de Roma, não vejo mal algum em levar a cabo o culto num idioma descendente do Latim; seria como que uma continuação da religião como se ela nunca tivesse sido vítima de supressão. Não quer isto dizer, contudo, que o praticante deva descurar o seu Latim Clássico.
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: