Génese

Politeísmo é o ato de prestar culto a vários deuses e deusas de uma dada cultura, bem como a outras entidades. É um sistema de crenças que subsiste desde, pelo menos, o Neolítico até hoje. Isso equivale a mais de 12’000 anos de história contínua.

As razões que me trouxeram até a este sistema de crenças, são um pouco difíceis de precisar. Será predisposição? Talvez um chamamento? Ou uma simples conclusão ou opinião? O que posso assegurar é que o politeísmo esteve presente na minha vida praticamente desde que desenvolvi personalidade e interesses que me classifiquem como ser dotado de pensamento complexo. O meu interesse primário sempre foi História, nomeadamente de culturas da Antiguidade.

A minha primeira obsessão histórica foi a cultura Egípcia. Mal aprendi a ler, os meus pais fizeram questão de me dar um livro acerca desta mesma civilização, de modo a conseguirem calar-me por nem que por breves momentos. Uma das minhas memórias mais antigas (possivelmente a 3ª mais antiga) envolve a minha pessoa a ir ter com a minha mãe, após ter lido alguns parágrafos, e perguntar-lhe:

«Porque é que já ninguém adora os deuses do Egito

A resposta, se bem me lembro, foi algo como «não sei». Sentindo pena do dito povo, voltei à minha leitura, intrigado com o que mais poderia descobrir.
Contudo, a minha educação até então — e posteriormente — fora cristã, e provavelmente teria sido assim que me identificaria se então me questionassem sobre o assunto. Mas quão religiosa realmente é uma criança de 6 anos? Provavelmente “vai com a corrente”, sem ter grande opinião sobre seja o que for. Sim, fui cristão, não faço pretensão de erguer o nariz no ar e afirmar que nunca acreditei na existência e (suposta) benevolência de Yahweh e afins.

Aos 9 anos, contudo, um maior conhecimento sobre o cristianismo, assim como a minha própria condição como pessoa, levou-me ao ateísmo. Desenganem-se se pensarem que era daquelas crianças — que à imagem dos adultos — apregoam a sua descrença aos sete ventos, e ridicularizam quem acredite. Não o fazia porque não tinha grande vontade, além de que os meus pais não aprovariam, e mais ninguém da minha idade teria interesse em falar sobre o assunto. Verdade seja dita, estou inclinado para acreditar que a necessidade de me esconder dos demais me levou à atual opinião de que a religião deve ser mantida privada.
Foi nesta altura que perdi grande parte do interesse em História. Desde então, para além da catequese — da qual sempre protestei desde o primeiro dia em que lá pus os pés (já bastava a escola a ocupar-me o tempo), apesar de ter tido uma catequista fantástica no 1º e 2º anos — a minha vida era misericordiosamente livre de religiões indesejadas, o que me permitiu focar na minha imaginação e na educação.

Não foi até aos 12/13 anos que retomei o interesse em História, novamente e mais precisamente, das culturas da Antiguidade. Desta vez, por via de um excelente videojogo intitulado Age of Mythology. Não, não tive nenhuma experiência transcendente (creio eu), mas o jogo, aliado às aulas de História do 7º ano do ensino básico, foram uma importante fundação para um renovado fascínio pelos povos ancestrais, nas suas culturas, modos de vida, e religiões. Para mim, foi como uma diminuta janela com vista para o passado que me permitiu aumentar o meu conhecimento, e dar (mais) asas à imaginação.
Contudo, hoje reconheço que algumas coisas não foram somente imaginação. Lembro-me de explorar o bosque situado nas traseiras da minha escola secundária, perguntando aos meus botões sobre nomes como Ouranós, Poseidō̂n, Þórr, Aset, Krónos, Wesir, Freyja, etc… Provavelmente foi assim que dei os meus primeiros passos para um outro modo de entender do divino. Sem qualquer compromisso ou associação a um credo específico, cautelosamente deixei o ateísmo; passei a ser algo que talvez não tenha descrição (1).
Por outro lado, enquanto que Age of Mythology se foca nos aspetos mais míticos e “fantásticos” da História — como o nome do videojogo sugere — devo creditar mais outro videojogo. Num ponto de vista mais histórico e, até certo ponto, político, Rome: Total War deu-me a conhecer uma panóplia imensa de deuses, culturas, e motivos de conflitos. Enquanto que Age of Mythology apenas apresenta três culturas — Helénica, Nórdica, e Egípcia — Rome: Total War figura os Arménios, Britónicos, Cartagineses, Citas, Dácios, Egípcios (anacronicamente), Gálios, Germânos, Helenos, Hispânos (como um único povo!), Macedónios, Númidas, Partas, Pônticos, Romanons, Seleucidas, e Trácios. Sei que ainda possuo uma lista de todos os deuses incluídos no jogo, e o número de deuses chega às dezenas. Note-se que investiguei cada teónimo e já nessa altura (2004) me surgiam tímidos pensamentos de tentar prestar culto a alguns desses deuses, a conhecê-los, no futuro.

Todavia, só atravessei os metafóricos portões do politeísmo através da Wicca — talvez há 12 anos (2005) — que é, em essência, diteísta, ou seja, cultua duas divindades. Não creio que tenha sido um mau começo. Muito pelo contrário, proporcionou-me o que desejava e ainda mais. Acontece que metade destes 12 anos foram passados como wiccano, o que, a meu ver, pode ser interpretado como atestação da qualidade da fé. Foram 5 anos que nunca esquecerei, desde o primeiro e tímido rito, até à despedida agridoce.
Curiosamente, aquilo de que hoje está em voga queixarmo-nos (nós, politeístas “hard“), da Wicca é um fenómeno ao qual gosto de chamar “interpretātiō wiccāna“. Com isto refiro-me à visão atribuível — pelo menos nos tempos modernos — à ocultista Dion Fortune [2003, 124], que numa obra de ficção expôs que:

«(…) all the gods are one god, and all the goddesses are one goddess (…)»

Sendo que a visão diteísta com tendências panteístas da Wicca permitiria acomodar esta visão dado que o culto se foca no Deus e na Deusa, aos quais algumas tradições e praticantes atribuem “aspetos” de divindades historicamente conhecidas. Apesar de não discordar per se, isto foi algo que eu próprio comecei a fazer nos meus anos finais como wiccano. Em parte, porque foi assim que uma boa porção dos livros que li ensinava e não vi nada de errado nisso, mas também consegui atribuir esse hábito ao desejo de algo mais próximo a uma cultura verídica, aos deuses sobre os quais já havia lido e que me fascinaram; não o panteísmo que a Neo-Wicca promove muito mais ativamente que a Wicca Tradicional. Tentei engendrar uma forma de “Wicca Celta”… sim, podem apedrejar-me.

Foi por este motivo — o cada vez maior pender para o politeístimo “hard” — que gradualmente ponderei deixar a Wicca, e me aventurei a ler sobre as culturas já previamente mencionadas. Apesar de o meu interesse em tudo o que pertence à Antiguidade ser praticamente insaciável, a minha metafórica estadia na Wicca deu-me a conhecer os povos que hoje designamos como Celtas. Apesar de o meu entendimento, na altura, não ter sido de todo extenso, sentia um fascínio vastamente maior que aquele que sentia pelos outros povos.
Após um período de cerca de 6 meses de reflexão e estudo, em agosto de 2010 rendi-me ao politeísmo Celta, ou seja, ao reviver das práticas religiosas e culturais dos povos Celtas, e sua adaptação aos dias modernos se necessária. O meu intuito inicial, foi o culto aos deuses nativos: ou seja, dos Galaicos e Celtiberos. Contudo, o comité de boas-vindas que me recebeu deu-me a entender que tal provavelmente não seria a opção correta, por razões que hoje ainda desconheço. Desanimado, ponderei no culto aos Deuses da Irlanda, Escócia e Britânia, mas,de alguma forma, a minha atenção voltou-se para a Gália. E aí me estabeleci.

Parte do já referido comité de boas-vindas ibérico, foi Lugus, que curiosamente parece ter sido cultuado pela esmagadora maioria dos povos Celtas (2). Creio que não será afronta afirmar que tendo em conta a sua natureza deambulante — que na altura desconhecia — que ele possivelmente já teria intenções de me dar um empurrão na direção aparentemente acertada. Não faço dele meu patrono, não vejo razões para tal, mas sempre o reconheço como um dos mais afáveis Deuses com que já tive contacto. Não é em vão que Iūlius Caesar o mencionou como padroeiro dos viajantes, logo, é natural que ajude os que estão sem rumo.


Atualmente, não me surpreende que a viagem ainda não tenha terminado.

  1. Não creio que ‘agnóstico’ seja o melhor termo, dado que um agnóstico tipicamente toma o pressuposto de que não existem provas concretas de que o divino existe, mas mantém-se aberto à possibilidade de tal, bem como à impossibilidade. No meu caso, diria que estava na fase seguinte ao agnosticismo, dado que não negaria a existência do divino, mas procurava informar-me sobre qual seria a sua natureza.
  2. Faltam atestações do seu culto entre os Lepônticos, mas o seu nome — ou teónimos secundários regionais — surge entre os Gálios, Celtiberos, Galaicos, Britónicos (período medieval), e Goidélicos. Isto claramente aponta para que fosse um dos deuses essenciais da cultura Celta na sua génese (primórdios da cultura Hallstatt).

Bibliografia:

Fortune, Dion. (2003). The Sea Priestess. York Beach: Weiser Books.

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