Aceitar a Herança

Algumas viagens terminam. Outras não têm fim. Feliz ou infelizmente. Embora seja tremendamente cliché dizê-lo, uma viagem literal ou metafórica oferece a quem a trilha a oportunidade de aprender algo de novo: de deixar para trás algo inútil, e de aglutinar a si mesmo o que lhe faz falta. Existe o potencial de ser um processo de aperfeiçoamento e de um novo despertar para a realidade.
Tendo isto em conta, diria que a viagem de um politeísta nunca termina… felizmente.  O processo pode ser para nosso benefício, ou (de alguma forma) para benefício das entidades que procuramos honrar e incluir nas nossas vidas.

Se no Herdeiros sem Testamento, há dois anos, fiz um género de manifesto que apelava à perceção de que a apropriação cultural não é um problema preto-e-branco, desta vez venho expor a minha aceitação da figurativa ou real herança à qual há bem pouco tempo resolvi deixar de renunciar. Como deve ser óbvio, uma parte da minha identidade baseia-se no facto de prestar culto aos deuses da Gália. Se imprimisse tudo o que já escrevi e escreverei sobre eles e a cultura que lhes é intrínseca, poderia criar uma fonte de tinta. Ainda assim, e como salientei no post acima referido, existem “impedimentos” e “imperfeições”, e não me refiro aos impedimentos derivados de registos históricos limitados. Acontece que não sou Gálio, apesar de estudar há sete anos para ter um nível de conhecimento teoricamente equiparável ao de um vate ou druida, em termos religiosos.
Não sou Gálio… O meu sangue muito dificilmente é Gálico. A terra que me sustém e para o interior da qual voltarei não é a Gália (Litau̯ī). Sou filho de Portugueses que aparentemente sempre viveram nesta zona do noroeste da Ibéria. Sou produto da Europa, mas não posso ignorar que pertenço à Ibéria.

É um pouco estranho aperceber-me disto e dizê-lo. Não quero eu dizer que passei  sete anos completamente alheio ao facto de ser Português e nada mais do que isso. Sempre tive plena noção das minhas origens e nunca tentei fingir ou manter esperança alguma de ter qualquer ligação a outra região da Europa. Como referi na Génese, o meu intuito inicial, como politeísta “hard” era prestar culto aos deuses da minha terra, ainda que não tivesse feito praticamente nada com tal intuito enquanto wiccano. Contudo, com a minha decisão de me dedicar ao estudo e culto de novos deuses, os presságios indicaram relutância em me receber por parte da maioria dos deuses nativos a que me dirigi. Ainda que um ligeiramente abalado, segui Lugus até ao panteão da Gália. Como alguns de vocês saberão, esse grupo tem-me mantido extremamente ocupado desde então.
Porém, enquanto que na altura consegui avançar noutra direção com substancial facilidade, é possível que o desejo de regressar às origens sempre tenha estado latente, ainda que adormecido. Enquanto que a “pressão social” certamente não é um fator, serviu para ponderar os meus motivos quando alguém comentava ou indagava o porquê de eu prestar culto aos deuses da Gália e não aos “de cá”. Enquanto que mantive a verdadeira razão para mim mesmo, até há pouco tempo, nunca fui capaz de encontrar uma justificação que realmente me impedisse de lhes prestar culto nem que fosse de forma muito ocasional e passiva. Será que o desejo de não ir contra os desejos dos deuses tenha sido maior do que o desejo de os conhecer? Sempre me regi pela cautela. Ainda assim, não me senti ofendido por aqueles que me questionavam. Dei-lhes e ainda dou razão.

Se nós, politeístas e pagãos, olharmos para as nossas comunidades globais, veremos uma tendência: o regresso às origens. Os Gregos voltaram a evocar os deuses que habitam o monte Ólympos. Os Alemães, Belgas, Noruegueses, Suecos, Dinamarqueses, e Islandêses relembraram-se dos Aesir e Vanir (e outros nomes não Nórdicos para eles). Os Franceses, Suíços, e Austríacos voltaram a construir nemeta. Na Roménia já se ouvem sussurros do nome de Zalmoxis. Em Itália a Tríade Capitolina voltou a receber os devidos sacrifícios, e nem os Aisar dos Etruscos são ignorados. Na Lituânia veneram-se os Dievaĩ e na Rússia os Bógi. Nas Américas vemos cada vez mais Mexicanos a voltarem para os Tēteoh, mais Maias étnicos a serem recebidos pelos K’uhob, mais nativos norte-americanos pelos deuses, espíritos e ancestrais cujo nome desconheço. E na Península Ibérica? Cada vez mais adeptos dos deuses dos Celtiberos, dos Galaicos, Lusitanos, Bascos, Romanos… até mesmo dos Suevos e Visigodos, que tão tardiamente para cá migraram. Todos eles fizeram de nós o que somos hoje, talvez não cultural e religiosamente, mas pelo menos geneticamente.

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Celebração de Jorė do grupo Lituano Romuva.

 

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Blót da comunidade Samfundet Forn Sed Sverige da Suécia.

É meu desejo poder dizer que faço parte do renascer da religião dos meus antepassados, de uma religião que pertence à minha terra. Aliás, poder dizer é o mínimo, poder participar, contribuir, e entrar em contacto com os deuses de alguma forma é o ideal. Apesar de não descurar de forma alguma a minha relação com os deuses da Gália, esta nova viagem é-me necessária, bem como toda a mudança que ela desencadeará. E por mais amor que tenha à cultura da Gália, há coisas que considero simplesmente descabidas, tendo em conta a minha herança e localização. Quero conhecer os segredos por cá enterrados, tornar-me confidente dos murmúrios únicos das árvores, rios, rochedos, e ventos que comigo coabitam.
Afinal de contas, existe um castro (Romariz), no qual se achou uma dedicação a Bandus, a apenas 7km de distância da minha casa, a norte.

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Quercus pyrenaica (fotografia própria).

Este post não tem o objetivo de envergonhar alguém que por uma qualquer razão não presta culto aos deuses da sua terra; já se costuma dizer que levamos os deuses connosco para onde vamos, não é? E quem sou eu para apontar dedos, se também eu cultuei e culturei deuses de outras terras? Além disso, quisesse eu envergonhar alguém por algo tão pessoal como preferência de deuses, escreveria um manifesto voltado para os milhões de indivíduos que já foram fiéis a Yahweh / Yahweh-Allah, ignoraram a sua herança, e preferiram empurrá-la num canto escuro e recôndito das suas mentes.
Trata-se apenas de uma necessidade e desejo meus de me aproximar à minha matriz, como planeava há muitos anos. Uma ânsia de mergulhar nos mistérios da Ibéria por via do sincretismo Galaico-Lusitano.

Confesso que não sei de onde veio esta súbita realização. Apenas posso precisar que um tema que inesperadamente surgiu em conversas com algumas pessoas pode servir de indício. O tema é a deusa Nābi̯ā, que recentemente “encontrei” em artigos de notícias e canções ao longo das semanas anteriores, de forma que reconheço como meramente acidental. Afinal de contas, se o meu único foco fora o panteão gálico, porque procuraria eu informação sobre ela?
Não sei praticamente nada sobre esta deusa além de que a etimologia do seu nome aponta para o domínio aquático, e que foi muito querida por Galaicos e Lusitanos, contando-se entre os teónimos nativos mais populares da Ibéria. Ainda assim, intriga-me a possibilidade de ela desejar algo de mim. Talvez seja ela a guia de uma nova viagem, tal como Lugus foi, há sete anos.

 

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