Homem sem Terra

Todos nós nascemos no planeta Terra, tal como todos aqueles que vieram antes de nós. Tendo nascido neste mundo, é apenas expectável que estejamos particularmente adaptados a sobreviver e prosperar no seu seio, tal como os restantes seres vivos com os quais partilhamos a nossa grande casa. Porém ainda que sejamos filhos desta Terra, tenho-me apercebido de um número alarmente de nós tenta fingir que não o é, ou nem dispensa um único segundo para se aperceber disso.

Não é segredo para ninguém que me defino como politeísta não-praticante, porque, obviamente, não tenho privacidade e paz para o fazer. Não é particularmente difícil, especialmente se estiver intensamente ocupado, mas há alturas em que é impossível não ser assoberbado por um sentimento que melhor é descrito como um “vazio”, uma desconexão quase absoluta do mundo. E ao dizer ‘mundo’ não me refiro à sociedade, mas sim ao literal mundo, à Terra.
É provável que a recente transição entre estações me tenha feito aperceber de que a diferença que me separa entre uma boa porção da sociedade moderna mainstream é muito ténue. O que é que o típico adulto, adolescente, e criança sabem acerca das estações? Provavelmente o mais básico: que a estação muda no dia 21 de março, junho, setembro, e dezembro, e que é preciso mudar a quantidade de roupa.
Todavia, é muito mais do que isso. Não conhecem as épocas de arar, semear, e colher. Não têm de levar o gado a pastar, nem de o abater, ou ordenhar ou tosquiar. O agricultor e o criador de gado é que vivem as estações de uma forma que nenhum de nós se atreve experimentar (em parte pela incerteza económica). Será que o típico cidadão repara, pelo menos, nos detalhes mínimos? Na diferença no odor do ar entre estações. Na mudança do ângulo do percurso do sol através do céu. Nos ventos e nuvens que mudam de humor de acordo com a época?

 

Não. O que importa é se o tempo está solarengo, ou chuvoso, ou se neva. Acordar, apressar, contar as dolorosas horas no trabalho/estudo, voltar para casa, e dormir. Acordar, demorar ou stressar, ir aqui e ali, quiçá não sair de casa, quiçá dormir em qualquer altura. Desta forma se resume um dia de trabalho e um dia de férias do típico cidadão urbano.
Esta tem sido a minha vida há vários anos, e estou exausto.

Nesta sociedade moderna ocidental ou oriental, cada dia é igual ao outro, mais coisa, menos coisa. Não interessa se o mundo sofre metamorfose, não interessa de onde vêm a água, comida, e ar, eles simplesmente estão disponíveis. E como forma de lidar com esta separação da Terra, auto-imposta ou imposta por “tradição”, que o Homem dito moderno se agarra a qualquer coisa para preencher o vazio que não consegue identificar. Refugia-se em redes sociais, em obras de ficção, em trabalho, em posses, em mesquinhez ou exagerada bondade.
O Homem tentou exilar-se da Terra. Quem o convenceu talvez tenha sido o deus que afirmou tê-la criado unicamente para prazer do Homem; se a Terra inanimada sempre existirá, não passa de um objeto, de uma escrava para ser violada até à morte. E, após o exílio, e se libertar do hipotético tentador, o Homem voluntariamente trancou-se em algum canto recôndito — ainda proclamando a sua liberdade — rodeado dos tesouros e missões por ele mesmo criados, fazendo deles motivo para viver.

Etimologicamente, ‘homem’ provém do Latim homō (‘humano’) que, não tão surpreendentemente, é um derivado do Proto-Indo-Europeu dʰéǵʰōm (‘terra’), por via de uma forma mais curta *ǵʰmṓ ou *ǵʰm̥ṓ. O mesmo padrão repete-se muito mais claramente no par Lituano  žẽmė (‘terra’) < *dʰǵʰem- e žmuõ (‘homem’) < *ǵʰmṓ, bem como no Irlandês Antigo  (‘local’) < *ǵʰdʰōn- duine (‘humano’) *ǵʰdʰón-i̯o-; até mesmo o Gálico preserva esta associação à Terra, em gdoni̯osdoni̯os.
O Homem nasceu na Terra e precisa da Terra. Não só para sobreviver, mas para viver dignamente e como é suposto: unido a ela, consciente das mudanças na sua face e nas mudanças que ela provoca nele.

Embora não haja nada de errado em apreciar distrações, não devemos perdermo-nos nelas:

«It does not do to dwell on dreams and forget to live, remember that.»

Tendo despertado para a proximidade à Terra, ao ritmo das estações, aos 13 anos, não quero fazer mais parte da sociedade dita moderna, como hoje pesarosamente faço. Preciso de voltar para os deuses que formam este mundo, preciso de ver e sentir cada estação, sob a luz do sol e da lua. Preciso de me desenvencelhar das correntes que a sociedade, guarda e prisioneira, impõe. E, enquanto não o puder fazer, caminharei; serei, aparentemente, o único que se detém para observar as quase infinitas tonalidades de uma folha outonal. Convido-vos a fazer o mesmo, independentemente de qual estação atravessem. Homem sem Terra é um paradoxo.

 

Fontes:

  • Delamarre, Xavier (2003). Dictionnaire de la Langue Gauloise. Paris: Éditions Errance.
  • Derksen, Rick. (2015). Etymological Dictionary of the Baltic Inherited Lexicon. Leiden: Brill.
  • Matasović, Ranko. (2009). Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden: Brill.
  • Rowling, J. K. (1997). Harry Potter and the Philosopher’s Stone. London: Bloomsbury.
  • de Vaan, Michiel. (2008). Etymological Dictionary of the Italic Languages. Leiden: Brill.
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